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O canto do galo

Zico fala sobre sua trajetória conturbada em Copas e aposta no Brasil de Felipão para trazer o penta
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Ele foi a três Copas do Mundo como jogador (78, 82 e 86) e a outra como coordenador-técnico (98). Não ganhou nenhuma. Sua geração, que ainda teve um Sócrates, um Júnior e um Falcão, uma das mais geniais produzidas pelo futebol brasileiro, saiu dos campos sem o maior dos títulos. Pior para a história das Copas, que deixou de premiá-los. Mesmo assim, até hoje, Zico é o mais cobrado de todos. Como desperdiçar aquele pênalti contra a França, em 86? "A nossa geração não foi talhada pra chegar a essas conquistas", afirma Zico, sem dó, nesta entrevista exclusiva sobre Copa do Mundo. O Galinho relembra a convulsão de Ronaldo, se recusa a falar sobre Romário e defende o estilo Felipão.

Quais são as chances de o Brasil ser campeão nesta Copa?
Totais. A chance é igual para todo mundo. Não vejo o Brasil inferior a ninguém. Em termos de conjunto, a França e a Argentina estão um pouco acima dos outros. Mas na hora que se joga contra o Brasil isso acaba. O Brasil está no mesmo nível da Itália, da Inglaterra e de uma seleção dessas como apareceu a Croácia em 98, que pode ser Portugal. No entanto, é o tipo de seleção que tem bons valores, mas na hora da competição não consegue, fica na dependência de um Figo, de um Rui Costa...

O Felipão parece estar indeciso entre o 4-4-2 e o 3-5-2? O que seria melhor?
Eu ainda não vi nenhum time ou seleção que me agradasse jogando nesse esquema do 3-5-2. Eu sempre preferi o 4-4-2 porque o 3-5-2 exige um entrosamento muito forte entre as peças. Pede um trabalho tático intenso de posicionamento porque existe mais espaço para você cobrir. O Luiz Felipe pode encaminhar e conseguir isso, ótimo. Mas ele vai ter muito mais trabalho atuando com esse esquema.

Você andou defendendo o Luiz Felipe Scolari. Por quê?
O Luiz Felipe sempre foi cogitado para dirigir a Seleção. Ninguém chega a uma situação daquela de graça... Chega por méritos. Então, tem que se dar um crédito. Os times do Luiz Felipe, em competições mata-mata, sempre foram muito bem. Sempre me chamou a atenção o fato de ser um treinador que muda de clube e você não vê jogador de futebol falar mal. Acho que ele faz esse tipão, de cara durão, mas no cotidiano do trabalho é um cara que deve ter um bom diálogo com os jogadores. Isso faz com que haja uma coisa importante dentro do grupo que é a união. Eu acredito nesse tipo de pessoa.

Você acha que foi exatamente para preservar esse sentimento de união que ele teve a decisão de não convocar o Romário?
Você já sabe a minha resposta sobre qualquer coisa ligada a este cidadão. Eu não falo. Porque eu tenho um processo e é um direito que me cabe. Qualquer coisa que envolva este cidadão eu não abro minha boca para falar.

Há quanto tempo você está com processo contra ele?
Desde que foi colocada aquela história lá.
Em 98, após ser cortado da Seleção, Romário mandou pintar uma caricatura de Zico (e também de Zagallo) na porta do banheiro de sua boate Café do Gol, na Barra da Tijuca, no Rio.

Mas o processo não impede você de dar nenhum depoimento.
Não, lógico. Mas eu não quero dar chance para nada...

Mas você acha que essa tem sido a atitude dele? Recentemente, Romário deu uma indireta, após ultrapassar a sua marca de 831 gols, dizendo: "Agora, só vejo o Pelé na minha frente."
Não faço nenhum comentário sobre ele. Tudo que você me perguntar e eu achar que tem alguma conotação ou ligação com ele eu não falo.

O que tem se comentado é que a Copa do Mundo vai ser fundamental para o futuro do futebol brasileiro. Se o Brasil ganhar, muda pouquíssimo e a bagunça continua. Você acha que se o Brasil perder vai ser mais fácil modificar o futebol brasileiro?
Não, o futebol brasileiro mudaria se a Seleção não tivesse conseguido se classificar para a Copa. Aí sim. Se acontecesse aquela catástrofe mudaria muita coisa no futebol brasileiro. Agora, ganhando ou não ganhando, vai mudar pouca coisa.

O que poderia ser melhorado para esta Copa? Na França, comentou-se que a concentração não foi bem escolhida e que a região era muito fria.
Não, eu acho que o planejamento foi bom. O único problema que nós tivemos foi em Marselha porque o local que a gente estava era muito alto e aí tínhamos que descer as curvas e isso foi um problema, alguns passaram mal... Mas isso foi no jogo da Noruega. E, coincidência ou não, nesse jogo nós acabamos perdendo. Mas na outra vez em que nós fomos para lá, ficamos em outra concentração.

Quatro anos depois, qual é a sua avaliação sobre a preparação da Seleção para a Copa de 98?
Uma seleção não chega a uma final de Copa do Mundo por acaso. Eu tenho a convicção de que se não acontecesse aquele problema no dia do jogo (com o Ronaldo), o Brasil seria o time que foi na semifinal contra a Holanda, e não aquele time totalmente apático e descontrolado, que dava a impressão de estar alheio a uma competição de futebol. Se o que aconteceu fosse na véspera eu acho que o pessoal já teria um tempo a mais para entender o que foi e realmente assimilar aquele golpe. Pelo que nos foi passado estava em risco a vida de um membro da delegação. Foi assustador.

O que aconteceu naquele dia?
É bom que a gente conte tudo que aconteceu naquele dia, pelo menos o que aconteceu comigo, o que eu vi. Eu soube praticamente quase duas horas depois que o Ronaldo teve a convulsão. Eu estava conversando com o Gilmar (Rinaldi) e com o Evandro (Motta), que trabalhava a parte motivacional dos atletas. Estávamos lá no refeitório, conversando e fazendo um apanhado do que foi a Copa do Mundo. O papo foi tão legal que durou horas. Então eu fui para o quarto para me arrumar porque depois do jantar era a preleção. Quando eu estou passando para um outro compartimento onde ficava a rouparia, o Wendell (preparador de goleiros) veio e me avisou: "Acho que tá acontecendo alguma coisa no quarto do Ronaldo". Eu fui lá e vi o Ronaldo sentado na cama com o médico Joaquim da Matta. O Joaquim falou que ele tinha tido uma convulsão e estava meio sonolento. Então, eu perguntei se o Lídio Toledo (chefe do departamento médico) e o Zagallo já sabiam, essas coisas todas, e fui para o meu quarto. O Da Matta disse: "Está tudo ok, tudo sob controle...".

E não estava.
Eu não tinha presenciado nada do que eu vi depois nas entrevistas, os jogadores dizendo que gritavam, que o outro (Ronaldo) estava morrendo, que o outro (César Sampaio) meteu a mão na língua... Isso aí eu só soube depois, com os jogadores dando entrevistas. Bem, quando nós voltamos para o jantar, às 5 da tarde, mais ou menos, o Ronaldo estava caminhando na minha frente, a uns 20 metros, quando parou na porta do refeitório e começou a tentar fazer umas flexões. Aí eu falei: "Ronaldo, o jogo é às nove horas e você já está fazendo o aquecimento às cinco?". E ele falou: "Pô, não sei o que aconteceu, eu tô com o corpo todo dolorido parece que eu levei uma surra". Aí, eu pensei: "Ele não sabe de nada do que aconteceu." Quando acabou o jantar, fomos dali para a preleção da comissão técnica e o Lídio contou tudo o que tinha acontecido, para nós, para o Zagallo.

O que o Lídio falou?
Falou que o Ronaldo tinha tido a convulsão e definiu que ele não ia jogar. Foi se discutindo uma série de coisas lá, mas o Lídio disse: "Zagallo, não joga, ele tá fora." Tudo bem. Zagallo foi lá, escalou o Edmundo e ficou definido que o Ronaldo ia com o doutor Joaquim para o hospital fazer exames.

E depois?
Assim definido, a preleção foi ótima. O Zagallo motivou o pessoal, falou que o Brasil já tinha sido campeão sem o Pelé, os jogadores deram uma levantada. Fomos para o estádio. Chegou a notícia: os exames do Ronaldo não deram nada. Mas ninguém pensava que ele fosse jogar. Por volta de uma hora antes do jogo, eu estava vendo a cerimônia de encerramento quando soube que estava tendo uma reunião no vestiário. Quando cheguei lá estava o Ronaldo, de frente, já de roupa, de calção, de meia, falando para o pessoal todo: "Meus exames não deram nada, eu joguei a Copa toda e quero jogar". O Lídio e o Zagallo perguntaram se ele estava bem mesmo e ele falou que estava, então foi decidido que ele ia jogar.

Mas ele deveria ter sido escalado depois de tudo?
Eu sempre mantenho uma posição: só tem uma pessoa ali que poderia vetá-lo, que seria o médico (Lídio Toledo). Ele vetou às 5 e meia e às 9 horas liberou. Então ele assumiu toda a situação. O que o Zagallo poderia fazer era: começou o jogo, viu que não estava bem, aí tirar o Ronaldo. Mas se fosse por isso ele teria que tirar todo mundo porque ninguém estava bem.

Por quê?
Por causa da preocupação: os jogadores, a cada meia hora, perguntavam: "Pô, Lídio, o cara corre risco de vida?", tinha aquela tensão. Principalmente aqueles jogadores que viram, como foi o caso do César Sampaio, do Cafu, do Gonçalves, do Roberto Carlos. A gente tomou um susto, eu tomei um susto.

Várias hipóteses foram levantadas para explicar a convulsão, entre elas um acidente durante uma suposta infiltração no joelho do Ronaldo. O que realmente aconteceu?
Quem deve falar disso é quem deu a infiltração, se é que houve, ou quem levou. Eu não posso chegar assim, eu não sou leviano, de ficar acusando ninguém. Eu não vi, eu não posso falar nada.

Mas isso poderia ter sido feito sem o seu conhecimento?
Claro que pode. Você pode tudo sem conhecimento. Você pode tomar remédio, pode tomar uma série de coisas. Tem jogador que vai em cima do massagista, coitado, e pede Voltaren para jogar. O massagista para não ficar mal com o jogador dá.

Então, você não descarta essa hipótese de infiltração?
Eu, na vida, não descarto nada. Eu não duvido de nada. Eu só não falo de uma coisa que eu não vejo.

Você já disse que foi um erro ter ido machucado à Copa de 86. Você se arrependeu de ter jogado aquela Copa?
Não, eu nunca admiti que foi um erro. Eu não queria ir. É diferente. Eu pedi pra sair da seleção depois que tive aquela lesão contra o Chile. Eu precisava fazer uma cirurgia no joelho e não daria tempo de me recuperar para a Copa. Mas aí teve aquele negócio, disseram: "Você é importante, não dá pra fazer um esforço?". Eu falei: "Olha, é um sacrifício muito grande, mas se tiver que fazer eu faço." Agora, sabe, não é que eu tenha ficado chateado, mas tudo aquilo que eu fiz, aceitando tudo, nem daquela forma eu consegui reunir a confiança do treinador de me escalar. Ele (Telê Santana) achava que era melhor me colocar no segundo tempo. Se eu não tivesse problema no joelho duvido que ele ia pensar em me colocar no segundo tempo. Por isso que eu falei que foi um erro fazer aquele sacrifício todo e ainda acabar dando no que deu.
Zico entrou em campo no segundo tempo contra a França, bateu o pênalti e o goleiro Bats defendeu.

Você ainda pensa naquele momento em que perdeu o pênalti?
Fica na cabeça porque o que as pessoas têm a falar de mim é que eu perdi o pênalti. E só fica nisso. Não foi diferente das partidas contra a Irlanda, a Polônia, dos jogos que eu entrei. Agora, aquela partida teve o pênalti. Quer dizer, eu criei o lance do pênalti mas bati mal e perdi.

Você já sonhou em rebater aquele pênalti?
Não, não. De maneira nenhuma. Não tem nada a ver. A vida não é feita só de coisas boas. O que mais me tocou naquele lance todo é que teve um jogador da Copa de 50, não me lembro agora qual, que depois que eu perdi o pênalti - pra você ver, 36 anos depois! -, ele fez o comentário: "Finalmente, agora vão esquecer da gente e daqui pra frente vão falar só do pênalti do Zico." Eu não fiquei aborrecido com ele. Mas fico imaginando o que uma pessoa dessa sofreu. Como o Barbosa, que um dia deu uma entrevista dizendo: "A condenação máxima para um bandido é de 30 anos de prisão, e eu estou há 50 condenado."

Você não se sentiu culpado pela eliminação do Brasil, naquela Copa?
Em nenhum momento. Eu cometi um erro de futebol como perder um gol, tomar um frango, atrasar mal uma bola. Isso faz parte do jogo. Eu sempre digo que uma equipe para ganhar uma Copa do Mundo deve estar preparada para todo tipo de adversidade, do contrário, não vai conseguir. A Itália na final da Copa de 82 perdeu um pênalti, mas o time estava tão bem que chegou lá e ganhou o Mundial. Então, ninguém poderia dizer que se a bola entra o Brasil iria ganhar aquele jogo e chegar à final da Copa.

Você considera que a sua geração foi injustiçada em termos de Copa do Mundo?
Não tem esse negócio. Nós tivemos a oportunidade, mas nós devemos ter cometido algum erro que não nos fez chegar lá. A nossa geração não foi talhada pra chegar a essas conquistas.

Como assim?
Faltou nós jogarmos de acordo com a competição. Talvez, pelo nosso tipo de futebol, não dávamos a atenção necessária que a competição Copa do Mundo precisa pra se ganhá-la.

Em termos de marcação...
É aquele negócio: não é jogar futebol, é jogar pra ganhar, a todo custo, de qualquer maneira. Então eu acho que se você tiver que praticar o antifutebol pra ganhar tem que praticar.

Se tivesse que voltar em 82, você trocaria o futebol bonito pelo título?
Eu não. De maneira nenhuma.

Nem para dar o título que os brasileiros tanto queriam?
Não. O brasileiro não esquece daquela seleção de 82, mesmo tendo perdido. Talvez aquele tipo de futebol, pra se ganhar uma Copa do Mundo, não seja o mais indicado. Por quê? Porque o tipo de futebol para uma competição longa é uma coisa; pra uma competição que tem mata-mata é outra. E nós não atentamos para aquilo. Talvez nós não éramos acostumados a jogar no mata-mata.

Muitos comparam as Seleções Brasileiras de 82 e de 94, como paradigmas do futebol-arte e do futebol de resultado. Você concorda?
Mas a Seleção de 94 era um bom time, adaptado a esse tipo de competição. Talvez esse seja o futebol, gostando ou não. O que marca é a conquista. Mas se o Brasil vencesse, em 82, acho que a referência seria o nosso futebol, pra fazer gol.
 

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Please, please, please - could you give those of us who do not know Portuguese an idea of the master is talking about?
 

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talking about ronaldo's problem in 98, and also about the team in 82 that it's biggest mistake was that it was not molded to win the World Cup, unlike the one in 94.
 
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