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Cinco copas e muitas histórias para contar

Poucos profissionais no mundo tiveram o
privilégio de participar de cinco Copas do Mundo.
Um brasileiro, nascido em São Carlos, interior de
São Paulo, pode se orgulhar disso. Moraci
Sant`Anna, preparador físico, trabalhou com
Telê Santana nas Copas de 1982 e 1986, na
Espanha e México, respectivamente; em 1990,
ao lado de Carlos Alberto Parreira, esteve no
Mundial da Itália, à frente dos Emirados Árabes;
em 1994, a convite de Carlos Alberto Parreira,
preparou fisicamente o Brasil na vitoriosa conquista do tetracampeonato, nos Estados
Unidos. E, em 1998, na França, completou sua quinta Copa do Mundo, novamente com
Parreira, orientando a seleção da Arábia.

Moraci guarda com carinho muitas recordações nestes quase 20 anos de Copas do
Mundo. Para ele, seu jogo inesquecível, foi a partida contra a Holanda, nas
quartas-de-final no Mundial dos Estados Unidos. "Nos anos de 1982 e 86 nós tínhamos
sido desclassificados nas quartas-de-final. O jogo com a Holanda transcorria
normalmente. Ganhávamos de 2 a 0 e a Holanda chegou ao empate. Quando sofremos
o segundo gol veio na minha memória as duas desclassificações com Telê Santana.
Quando o Branco fez o terceiro gol foi um alívio. Ali nós tínhamos dado um grande
passo para a conquista do título. E depois não deu outra. Vencemos a Suécia por 1 a 0
e o Itália nos pênaltis, após 0 a 0 nos 90 minutos", relembra Moraci.

Nessa Copa, Moraci lembra de alguns fatos que pouca gente ou ninguém sabe.

"O Romário foi o último jogador que se apresentou. Ele estava na Europa jogando pelo
Barcelona. Ao invés de retornar no dia seguinte a uma decisão com o Milan, chegou no
sábado e se apresentou à noite na concentração. Ele estava jantando e me aproximei
para uma conversa. Contou que estava sem dormir há dois dias em razão de viagens.
Eu disse que não tinha problema, mas que na segunda-feira teria de fazer uma
avaliação física. Ele, em cima, perguntou. "Mas precisa professor? Pode considerar que
eu estou zero." Imediatamente respondi: "Mas eu quero saber qual é o seu zero. Se
você está zero e desequilibra, já imaginou com 25% ou 30% de condição física? Aí você
arrebenta." Ele deu uma risadinha e falou: "Está bem professor, vamos comer uma
sobremesa."

Na terça-feira, à noite, no avião que nos levava para os Estados Unidos, o Américo
Faria me entregou o resultado dos testes. Estava uma lástima. Chamei o Baixinho para
sentar do meu lado e falei. "Realmente a sua avaliação está uma merda. Está mesmo
um zero bem redondo", e rimos. "Com este resultado sei como trabalhar com você.
Esqueça o tempo dos outros jogadores. Mas daqui para a frente eu quero ter a certeza
de que tudo aquilo que você vai fazer é o seu máximo."

Tudo o que eu programei ele fez e os índices foram melhorando dia após dia. Na
avaliação final, após os testes, ele se aproximou e disse "E aí professor, fui mal?" Não
disse nada, apenas mostrei os números e ele abriu um sorriso. Nos últimos três piques
havia alcançado a marca que eu havia proposto.

Moraci foi o responsável pela inscrição do lateral-esquerdo Branco. O jogador estava
convivendo com fortes dores nas costas há vários meses. "Eu assumi a
responsabilidade. Disse que ele jogaria a Copa do Mundo. Não deixei que ficasse um dia
sem treinar. Os trabalhos eram feitos em uma piscina. Ele colocava um colete de
espuma e eu amarrava uma corda nesse colete. Em seguida ele tinha de correr sem
tocar no chão. Esse método depois foi chamado de Deep Run (corrida no fundo). E foi
assim que se manteve em forma até o dia que jogou."

A chance viria num jogo decisivo para o Brasil, quando poucos acreditavam que ele
seria escalado. "Quando o Leonardo foi expulso no primeiro tempo contra os Estados
Unidos, o Parreira chamou o Cafu e o fez entrar no lugar do Zinho. Depois do
aquecimento do Cafu, o Branco me puxou pelo braço e perguntou: Professor, eu estou
bem ou não estou? Está, respondi, e acrescentei: Calma a sua hora vai chegar. E na
partida seguinte, contra a Holanda, ele começou como titular. Marcou muito bem o
Overmars, um dos melhores jogadores holandeses, sofreu uma falta próxima a área e
cobrou marcando o terceiro gol, que classificaria o Brasil para a semifinal. Depois do
gol, o Márcio Santos foi até a lateral e avisou o Parreira que o Branco estava chorando,
emocionado e que seria conveniente retirá-lo. E o Parreira o substituiu pelo Cafu. O
Branco foi muito disciplinado nos treinos e se sentia recompensando pelo esforço.
Quando acabou o jogo ele correu até onde eu estava, me abraçou e agradeceu pela
ajuda."
 
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