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SACUDA A POEIRA E DÊ A VOLTA POR CIMA

Não foi a mudança da capital que acabou com o Rio de Janeiro, foi a fusão da Guanabara com o antigo Estado do Rio. Ela começou em 1975, mas só foi se concretizar em meados de 80.

Quando o Distrito Federal se mudou para Brasília, pensou-se que seria o fim do Rio. O novo governador Lacerda recebeu grande apoio financeiro do exterior, dos americanos em especial. Devia ser um sujeito honesto, pois transformou o dinheiro em obras e no embelezamento da cidade-estado, preparando-a para os festejos do IV Centenário, que ocorreu em 1965. O apoio a Lacerda se deveu mais a sua postura oposicionista ao governo federal, chefiado por Jango, um presidente que desagradava aos Estados Unidos, do que por sua capacidade administrativa – que todos ainda desconheciam , ou mesmo ao amor dos americanos pelo Rio, agora Estado da Guanabara. A eleição de Lacerda foi um tanto estranha devido à participação de Tenório Cavalcanti, o político-pistoleiro de Duque de Caxias. O que fazia Tenório na parada, já que nem da Guanabara ele era? Simplesmente estava ali para tirar votos de Sérgio Magalhães, o candidato da esquerda. Tenório era dono da Luta Democrática, falecido jornal, daqueles que diziam que "se espremer, sai sangue". Portanto, um candidato popular, atuando na área onde os votos seriam de Magalhães, caso Tenório não aparecesse. Enfim, Lacerda foi eleito. Ficou conhecido como "o governador 30% ", que nada tem a ver com comissões em dinheiro, como a porcentagem poderia insinuar. Os 30% se referem à porcentagem de votos que recebeu.

Apesar do maciço apoio financeiro a Lacerda, malcriadamente o Rio-Guanabara continuava oposicionista ao governo militar. Em todas as eleições, os candidatos do MDB batiam os da Arena na Guanabara. Em todas as capitais, à exceção de Porto Alegre, a Arena se saía melhor. Era preciso castigar o Rio, porque o Rio Grande do Sul já havia sido exemplado com a cassação de deputados do MDB, de forma que a Arena pudesse eleger seu governador indireto. E assim, um belo dia, o presidente Geisel conseguiu que fosse acertada a fusão do Estado do Rio com a Guanabara.

Apesar de um estar entranhado no outro, as suas realidades eram completamente diferentes, tanto políticas como econômicas, culturais e sociais. O híbrido Estado do Rio de Janeiro nasceu para impedir que a oposicionista Guanabara continuasse a incomodar. Pelo pensamento do Planalto, a Arena passaria a vencer as eleições, pois, ao contrário da Guanabara, o antigo Estado do Rio tinha os seus caciques e eles aporiam a sua chancela coronelística às eleições. Se para as eleições de governadores não funcionou muito bem, o mesmo não se pode dizer quanto ao futebol. Caixa d´Água, de Campos, através de artifícios um tanto ou quanto jurídicos, se apossou da Federação do Rio de Janeiro e impôs sua política a todos os clubes.

A única vantagem da fusão é que passei a ser conterrâneo de Zizinho, Garrincha, Gérson, Amarildo, Didi, Roberto Dinamite, Leandro, Jair Rosa Pinto e Jairzinho.

Mas as coisas não se deram tão depressa assim. O esvaziamento econômico do Rio de Janeiro foi acontecendo aos poucos. O cultural o acompanhou. O antigo tambor se transformou em um tímido tamborim. As viagens internacionais, que antes tinham como ponto de partida o Galeão, passaram a decolar de São Paulo. Quem quisesse ir à Europa ou aos Estados Unidos, partindo daqui, teria que fazer escala em Cumbica, mesmo que isso representasse uma meia-volta na viagem. As empresas foram saindo. As pessoas foram se mandando para São Paulo, em busca da grana que estava escassa no Rio. De importante, só a Rede Globo ficou. O poder econômico fala mais alto, por isso o corpo físico da Rede Globo está no Rio, mas seu coração e sua alma estão em São Paulo.

Desde Collor os nossos presidentes têm sido eleitos segundo a vontade de São Paulo. Se tudo correr como as pesquisas mostram, São Paulo elegerá o novo presidente. Ou do PSDB ou de seu simétrico, o PT. O Partido dos Trabalhadores tem pouca importância no Rio, abrangendo essencialmente intelectuais e movimentos muito específicos, quase sempre ligados a minorias. Os tucanos nada significam por aqui. Um ou outro governador, prefeito, deputado e senador eleito mais pelo nome dele próprio do que pelo tucanato em que se abrigaram. A governadora Benedita está no cargo apenas por ser vice de Garotinho.

No momento em que Brizola foi empossado, contrariando os interesses da Rede Globo, o Rio passou a viver o seu calvário. Só nesta cidade os crimes aconteciam. São Paulo era a ilha da tranqülidade que a TV mostrava. Meu tio Otávio, grande cartunista, que começou na Última Hora da Praça Onze e depois se transferiu para São Paulo, não vinha ao Rio com medo de ser assaltado. Bastou Brizola ser afastado, para que os crimes, como por encanto, começarem a surgir em São Paulo, como exaustivamente o Jornal Nacional tem mostrado.

Claro, essas mudanças para pior, que afetam a Cidade Maravilhosa, não aconteceram de repente. Diferentemente de outras Unidades da Federação, que não foram submetidas à fusão do tipo banana com laranja, o novo Estado do Rio de Janeiro ficou muito mais enfraquecido do que os Estados que lhe deram origem. Perderam tanto o ex-Estado do Rio como a ex-Guanabara. Culturalmente fomos assimilados pelo poder maior, o econômico. Isso é natural, em se tratando de uma relação centro-periferia, que Raúl Prebisch da CEPAL abordou ao analisar o fosso cada vez maior entre os países industrializados e os subdesenvolvidos. Devagarinho estamos perdendo a identidade linguística, porque a identidade mesmo já a chamamos de RG. Aos poucos fomos aceitando que Emerson é Émerson, que o Roma é a Roma. Ainda mantemos algumas diferenças: contracheque não se tornou holerite, por exemplo. Entretanto, o chiado no "s" final, que tanto caracteriza os cariocas, ficou caricato. Meus amigos paulistas, por habitarem no centro, talvez não se dêem conta do que está acontecendo. Eles se mostram surpreendidos com nossa galopante queda quando vêem aqui nos visitar.

Por isso, não é à toa que não entramos nos quatro primeiros do Rio-São Paulo e ficamos entre os quatro últimos. Pela influência do coronelismo do antigo Estado do Rio é que temos um Caixa d’Água reinando no futebol. Por isso é que tão cedo não veremos um jogo entre clubes cariocas como as excepcionais partidas que travaram Corinthians e São Paulo pela Copa do Brasil. Foram jogos que, se terminassem 0 a 0, ninguém se incomodaria, graças à beleza tática e técnica dos encontros.

Repito, nada disso foi de repente. Em 2002 estourou a nossa inferioridade. É bem provável que a safra de treinadores que criou escola no futebol brasileiro, e que saiu do Rio, tenha chegado ao fim por falta de ambiente em que possa se desenvolver. Técnicos da estirpe de Flávio Costa, Zezé Moreira, Zagallo, Saldanha, Tim, Parreira, Sílvio Pirillo, Oto Glória, Jorge Vieira, Kanela, Carlinhos, Evaristo, Gentil Cardoso, Cláudio Coutinho, Telê, Paulo Emílio, Edu Coimbra, Antônio Lopes e Luxemburgo iniciaram aqui. E não esqueçamos dos importados que se projetaram nacionalmente, como Kruschner, Ondino Vieira, Martim Francisco e Fleitas Solich. Como treinar se não há mais campos e jogadores?

Gostaria de ser menos pessimista. Mas para enxergar alguma coisa boa é evidente que algo de profundo deve ser feito. Já que não temos como mudar as forças econômicas em ação, já que não há como fazer retornar o Estado da Guanabara, mexamos naquilo que podemos. Se o assunto é futebol, o que fazer, então, para modificar este estado de coisas? Primeiro, a CPI do futebol tem que ir adiante, "duela a quién doler", como dizia um recente presidente da República. Ao mesmo tempo, Caixa d’Água e suas idéias têm que ser enfrentados. E não será um embate fácil. Para quem não sabe, o Caixa é um sujeito muito inteligente e intelectualmente preparado. Pode ser folclórico, mas tem cabeça e dialética. Por fim, a salvação está em um calendário racional. Não o da Globo e do ex-ministro Melles, mas um calendário que seja adaptado ao período de jogos europeu, com pontos corridos, jogos com ida e volta e com três fortes divisões. E que não extinga os campeonatos regionais, fonte de todas as saudáveis rivalidades. Acredito que, dessa maneira, o futebol carioca poderá suplantar a sua inferioridade político-econômica usando o que tem de mais forte – as torcidas de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco.
 
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